sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

AS OFERENDAS

Dentro do culto aos Orixás, o mais importante são as oferendas aos Orixás, que têm por finalidade manter o equilíbrio das relações entre eles e os seres humanos.

É através das consultas ao Oráculo de Ifá, que as pessoas, mesmo as não iniciadas, são informadas a respeito das exigências de seus Orixás e principalmente de Exú, relativas às oferendas que desejam receber.

Nem sempre estas exigências são estabelecidas pela relação anteriormente explicada entre o ser humano e seu Orixá de cabeça, muitas das vezes, é um outro Orixá quem se oferece para solucionar um determinado problema ou alguma dificuldade que está sendo vivenciada e, em troca, exige algum tipo de sacrifício em seu louvor.

Algumas vezes, pessoas atormentadas pelos mais diversos tipos de dificuldades, recorrem aos préstimos de algum Orixá, oferecendo algum tipo de sacrifício como penhor de sua confiança e de sua fé, da mesma forma que os católicos recorrem aos seus santos, implorando graças e fazendo promessas que, invariavelmente, são pagas somente após a obtenção da graça solicitada.

Os sacrifícios oferecidos aos Orixás, são genericamente denominados “ebós” que se dividem em “ejenbale” (sacrifícios com derramamento de sangue) e “adimús” (sacrifícios incruentos).

Os ebós ejenbale, dividem-se em diversos tipos, exigindo sempre o derramamento de sangue de algum tipo de animal que pode ser uma ave, um quadrúpede ou até mesmo um simples caramujo. Dentre os mais conhecidos, destacamos:

Ebó ejé: Oferenda votiva que tem por finalidade obter determinado favorecimento ou graça de uma Divindade.

Ebó etutu: Sacrifício de apaziguamento. Este tipo de sacrifício é geralmente determinado pelo Oráculo e tem por finalidade acalmar a ira ou o descontentamento de uma entidade qualquer.

Ebó a ye ipin ohun: Sacrifício substitutivo. Tem por finalidade substituir a morte de alguém pela oferenda determinada pelo Oráculo, no Brasil, este sacrifício é vulgarmente conhecido como “ebó de troca”.

Ebó ba mi d’iya: Sacrifício que visa atenuar uma punição de morte imposta à uma pessoa por um Orixá ou por um espírito maligno. Neste caso, como no anterior, um carneiro é sacrificado em substituição ao ser humano.

Ebó Ogunkojà: Sacrifício preventivo que pode ser público ou individual. Tem por finalidade evitar qualquer tipo de acontecimento nefasto que ameace a pessoa (individual) ou até mesmo uma cidade ou aldeia (público).

Ebó a d’ibode: Trata-se de um sacrifício propiciatório e preventivo. Este sacrifício é oferecido na fundação de uma casa, aldeia ou cidade e tem por finalidade acalmar os espíritos da terra no local da fundação. Antigamente, este ebó exigia o sacrifício de seres humanos que hoje em dia, foram substituídos por diversos animais.

Como podemos observar, o sacrifício de seres humanos era exigido nos primórdios do culto o que, sem dúvida, seria hoje considerado um absurdo, além de configurar-se, seja em qual for a circunstância, em homicídio, selvageria e falta de respeito ao ser humano.

Da mesma forma, o derramamento do sangue de animais, só deve ocorrer em situações de extrema necessidade e em casos em que não possam ser substituídos por outras oferendas pois, se os Orixás, acostumados que eram a receberem sacrifícios humanos, concordaram na substituição dos mesmos pelos sacrifícios de animais, é fácil deduzir-se que estes podem também dar lugar a sacrifícios de minerais, vegetais e objetos de seu agrado.

Adentramos uma nova era em que todas as formas de vida adquirem sua valorização máxima e a vida dos animais, da mesma forma que a dos seres humanos, há que ser respeitada e preservada ao extremo. É chegada a hora de darmos um basta ao inútil derramamento de sangue que, ao invés de apaziguar os nossos deuses, só conseguem despertar a sua ira, tornando-os intolerantes e cada dia mais distantes de nós.

É necessário que se desperte nos adeptos do Candomblé a consciência do respeito devido a todas as formas de vida animal, cujo sacrifício só pode ser efetivado em casos excepcionalíssimos e quando todos os demais recursos hajam sido esgotados.

É num itan de Ifá, do Odu Odi Meji, que encontramos a fundamentação para as afirmações anteriormente feitas:

Odi Meji disse: “Metolõfi, por avareza, não quis sacrificar um boi de malhas brancas e a morte veio buscá-lo.”

Quando Ifá estava ainda no ventre de sua mãe, pediu que seu pai pegasse um boi malhado de branco e oferecesse em sacrifício, a fim de evitar que dentro de três anos, uma guerra viesse dizimar o seu reino. Seu pai negligenciou o sacrifício e no dia do nascimento de Ifá, seu pai morreu e sua mãe foi capturada como escrava.

Três anos depois, a guerra arrasou o país e Ifá mandou que Ajinoto, a parteira, o encerrasse dentro de uma cabaça, de forma que ninguém o pudesse ver. A parteira foi encarregada também, de avisá-lo logo que alguém passasse por perto, para que ele revelasse ao passante, a causa de seus sofrimentos e os remédios e sacrifícios que resolveriam todos os seus problemas.

Tudo ocorreu da forma como Ifá planejara e o homem que passou naquele local, não hesitou em levar para sua casa, a cabaça onde Ifá havia sido encerrado.

Para deslumbramento de todos, Ifá, de dentro da cabaça, dava conselhos, receitava medicamentos e resolvia os mais difíceis problemas.

Um dia Ifá ordenou que alguém se dirigisse ao mercado onde, pelo preço de quarenta e um caurís, deveria comprar sua mãe que estava sendo vendida junto com outras escravas. “A primeira mulher que for oferecida deve ser comprada, pois esta é minha mãe.”

Naquela época Ifá costumava aceitar sacrifícios humanos no festival de Fanuwiwa.

Quando a escrava adquirida no mercado foi trazida, Ifá ordenou que lhe fosse entregue uma certa quantidade de milho, para que pilasse e transformasse em farinha destinada à preparação o amiwo.

Enquanto pilava o milho, a mulher ouvia os fiéis invocando Ifá:

“Orunmilá! Akefoye! Agbo wi dudu hu do fe to!” (Orunmilá! Akefoye! Se teu nome é Ifá, jamais esquecerás de mim!).

Reconhecendo em Ifá o seu próprio filho, a pobre mulher pôs-se a cantar, em voz alta, a saudação que ouvia:

“Orunmilá! Akefoye! Agbo wi dudu hu do fe to!”

As pessoas contaram a Ifá sobre a mulher que cantava aquela saudação enquanto pilava o milho e Ifá ordenou que ela largasse aquele trabalho e que, no dia seguinte pela manhã, chamasse por ele junto com seus fiéis, para que pudesse mostrar a todos de que forma deveria ser corretamente alimentado. Ordenou ainda, que fosse preparado um akpakpo e dois panos brancos de cabeça denominados kpokun abuta, proibindo a todos de olharem para aqueles objetos.

Como Ifá vivera, até então, fechado dentro de sua cabaça, jamais havia sido visto por ninguém. Quando todos se afastaram Ifá saiu de sua cabaça coberto por um grande chapéu, vestindo um avental de pérolas e calçando sandálias, indo sentar-se no alto de um tripé de onde gritou:

“Olhem bem, sou eu, Ifá! Ifá que ninguém nunca viu… A mulher que mandei comprar no mercado de escravos deve ser trazida até aqui!”

A mulher foi trazida à sua presença e Ifá mostrou-a a todo mundo dizendo:

“Olhem bem, esta é minha mãe! Quando eu estava no seu ventre determinei que meu pai deveria sacrificar um boi malhado de branco, para evitar malefícios que já estavam previstos. Mas meu pai não atendeu minha orientação e todo o mal acabou por se concretizar. Tanto tempo se passou e eu comprei esta escrava para ser sacrificada em minha honra. Entretanto não a sacrificarei! Não poderia trair minha própria mãe, mesmo que ela me tenha traído.”

Dito isto ordenou que cortassem os longos cabelos de sua mãe, que envolvessem sua cabeça com um belo torso branco e que a instalassem sobre a almofada akpakpo. Depois pediu um boi e um cabrito para serem sacrificados. Com a farinha moída por sua mãe mandou preparar um amiwo para ela, que não poderia ser comido em sua presença.

Desta forma, assentada sobre um akpakpo, transformou-se ela em Nã, mãe de um rei.

Aos jovens que prepararam as carnes do boi e do cabrito, assim como o amiwo, ordenou que fosse dado uma parte de cada coisa, para que comessem depois da cerimônia. 1

A velha disse então a seu filho, que sentia-se muito envergonhada, pois não merecia tantas honrarias e que naquele dia iria encontrar-se em Ló (local para onde vão os espíritos dos mortos), com seu finado esposo.

“A partir de hoje, quando fizerem uma cerimônia em minha honra, digam: Nã kuagba! (Nã seja bem vinda!), e virei receber as oferendas.” – Disse a mulher.

Nã disse ainda, que faria o Sol tornar-se mais brando ou mais quente, comandando-o de cima de seu akpakpo.



A partir de então, realiza-se sempre o ritual de Xe Nã (dar comida à Nã), quando terminam os festivais Fanuwiwa. 2
Este Itan de Ifá fundamenta a possibilidade de substituição do sacrifício de um ser humano pelo de animais, o que nos leva a concluir a possibilidade da substituição do sacrifício destes por outros tipos de oferendas, partindo da premissa de que o ritual é criado pelo homem e não pelos deuses.

Isto posto, passemos ao assunto que é, na verdade, o principal objetivo do presente trabalho, a apresentação de uma vasta relação de oferendas incruentas aos Orixás e a outras entidades cultuadas no candomblé.

O assunto será tratado de forma direta, através de um receituário contendo os ingredientes, o procedimento e o objetivo de cada trabalho, assim como à qual entidade deve ser oferecido.

1 – Depois das cerimônias de Nã, aqueles que preparam os alimentos a ela oferecidos, recebem uma pequena parte destes alimentos, parte esta que recebe o nome de kle ou kele e que só pode ser consumida depois que o Vodun for servido. (Este rito acompanha as cerimônias às divindades nagô sob o nome Atowo e às divindades fon sob o nome de Nudide).



2 – Itan coletado por Bernard Maupoil na região onde hoje fica a atual República do Benin e publicado em sua magnífica obra sobre o sistema oracular de Ifá, ”LA GEOMANCIE À L’ANCIENNE CÔTE DES ESCLAVES”

Ifá o Òrìsà do Destino - Introdução

Òrúnmìlà-Ifá, ocupa uma posição única no panteão africano, através dele podemos decifrar o código secreto espiritual de qualquer ser humano, comunidade ou Nação, pois nele está inciso o poder da criação.

Na ordem divina de Olódùnmarè o espírito é eterno, e através de Òrúnmìlà-Ifá conseguimos obter a soma total de nossa existência, a nossa ligação com o Universo, e o destino que escolhemos para voltar a vida quando nascemos. Ele é o diagnóstico de nosso Elédà (mente superior), sabendo tudo o que aconteceu no passado, está acontecendo e qual será o nosso futuro. Òrúnmìlà-Ifá é a tradução da sabedoria infinita de nosso Deus criador, aquele que tudo sabe, tudo vê, é o verdadeiro elo de ligação entre o homem e o criador.

Na Cultura Yorùbá são os elementos da natureza que dão condição de vida no planeta, a água, o fogo, o ar, e a terra. Estes se apresentam de inúmeras formas que se multiplicam primeiro em dezesseis, sendo o número dos primeiros Òrìsà primordiais, que vieram para ajudar a construção do planeta sob todas as formas de vida, ou os dezesseis Odù, a tradução literária de todos os problemas do homem, e neles estão contidos toda a sabedoria da criação.

Ifá transmite sua palavra através dos dezesseis Odù, e estes são a expressão da natureza que é a fonte de energia que movimentará e determinará a personalidade da pessoa. Estes Odù, multiplicados por mais dezesseis perfazem 256 tipos de divindades diferentes entre si, com atributos próprios e cada um conterá uma complexidade de inúmeros caminhos ao qual servirão para auxílio da raça humana.

Em nosso princípio ancestral, todos nascemos da terra, veja a composição de seu organismo que é composto de água, minerais, ferro, e assim por diante, portanto é natural que para encontrar o equilíbrio de nossa vida também façamos uso dos elementos que saem da própria natureza. Toda a criação Divina tem uma função determinada para auxiliar a sobrevivência em equilíbrio entre as forças negativas e positivas.

Na tradição africana, por tudo o que já foi dito, Ifá é um Órìsà muito venerado. Em sua terra (Ilé-Ifá) existe um templo muito antigo onde todas as sextas-feiras as pessoas vão rezar para a paz no planeta. Como nada será feito de importante sem antes consultá-lo, quando um bebê nasce, entre o terceiro e quinto dia após seu nascimento ele é levado ao Bàbáláwò para que se faça uma consulta a fim de saber qual será o destino desta criança, recebendo tratamento para que o rumo de sua vida seja o melhor possível.

Qualquer caso de saúde, casamentos, financeiro, amoroso, depressão é revelado através de divinação, que além do problema apresentará as possibilidades de melhorar a situação determinando o que poderá ser feito para atrair a sorte, a paz e a felicidade de cada um.


O Culto a Ifá envolve as oferendas, proteções que são feitas com as magias, e a cada novo ano ele será consultado para saber o futuro da comunidade. Sua importância é tanta que será através da consulta ao Òrìsà que um novo rei será eleito, uma vez que pode conhecer a pessoa ideal para ocupar qualquer cargo tanto como um líder, ou outro tipo de ocupação, estas são marcas que já trazemos de nosso espírito ancestral.

Se após a consulta for determinada a realização de algum sacrifício para um Òrìsà, não se pode esquecer a parte dedicada a Èsù, pois ele é a energia que transformará a sua necessidade, enquanto matéria, em energia sutil a fim de que seu pedido chegue a Olódùnmarè.

Ele é simbolizado por trinta e dois caroços de um tipo especial de palmeira de dendê, os quais apresentam três ou mais "olhos", ao invés de apenas dois, como nas palmeiras comuns. Antes de serem servidos ao Òrìsà, os caroços deverão ser preparados especialmente no bosque de Ifá, para só depois serem manipulados pelo Sacerdote de Ifá para fins de divinação, e só podem ser extraídos por homens.

Quando uma leitura não favorece o consulente, não é necessário ficar em desespero, pois Ifá poderá ser consultado novamente para informar qual o melhor procedimento para eliminar o obstáculo que lhe entravam a felicidade. O animal necessário para o sacrifício só será determinado através da divinação, e após ser efetuado, o consulente deverá apresentar-se mais uma vez perante o Òrìsà a fim de saber se ele se satisfez.

Entre nós, os Yorùbá, os Sacerdotes dedicados a Ifá pedem sua benção todos os dias pela manhã, e uma vez por ano promovem uma festa em sua homenagem.

Obì, é um fruto sagrado também considerado Òrìsà, e o de quatro gomos são suficientes para o seu culto diário. Todas as manhãs o Sacerdote colocará um Obì dentro d´agua e começa a bater no Opon-Ifá, com o Iroke-Ifá.

Enquanto bate recitará um Oríkì (evocação) a Ifá como abaixo descrito em lingua Yorùbá

Ti a ba ji a we´wo toni, a we´se kasin owuro
Ti a ba ji, a tun wa fi aso toki bo`ra
Mo ni Òrúnmìlà, o ji re loni
Ela, o ji´re loni
Morohuntolu, Mosiakaragba, omo erin nfon gu l´alo
Omo e ekama owo ko jékun ara abe
Omo abeto winniwinni b´eji ro p´omo akunnu
Omo olobe to fi ori mo odi umo jumo
Oma jire loni o
O ji re loni tokun-tokun
O ji loni tide-tide
O ji bi oloto ti nji nile Ado
O ji biurinrin ti nji lode owo
O ji bi peepee ti nji lodo Asin
O ji bi Olosunta ti nji lode Ikere
O ji bi ala ti nji lode Ado (Ibini)
O ji bi oro gidigba ti nji lode Isele
O ji bi Ubebe ti nji lode Ayo
O ma jeki oni san mi o

Logo após a evocação o Bàbáláwò parte o Obì, que se for do desejo poderá ser jogado para saber se o culto foi bem aceito, e esta água levada a Èsù. Se aceito o Obì cairá com dois gomos virados para baixo e dois gomos virados para cima (imagem da dualidade macho e fêmea) caso o resultado seja Aláàfia, ou seja os quatro gomos virados para cima, Ifá terá aceito o Obì, quando então o Sacerdote dividirá o Obì entre todos as pessoas que irão consultar com ele iniciando os trabalhos do dia.

Na comemoração anual de Ifá, o sacerdote oferece em sua homenagem: màrìwò, frango, peixes, cabra, Ìgbín (caracol), inhame, osuka omu, pedaço de tecido e Obì. O osuka omu, será colocado sobre a imagem de Ifá junto com três inhames amarrados, e assim o Bàbáláwò pronunciará as palavras do culto que em Yorùbá são:

Ifá, mo pe o
Òrúnmìlà, mo pe
Ela mo pe, omo oyigi
Òrúnmìlà mo pe
Et'eti ke gb'ure
Aaya olupe, uupe re ire o
Aaya olupe uupe re ire o
Aaya olupe, pe re ire o
Apeje apemu
Ape ni gbogbo dukia ninu odun yi
Ki o ni apawisi ioni
Ki o ni uwere a nise
Ki o ni wonran niboju ti nmo
Ki o wa gbohun awo loni

Após encerrar esta evocação o Bàbáláwò reza para todos os presentes na festa e partirá o Obì aceito por Ifá, distribuindo pequenos pedaços a cada um. Como oferenda será imolada uma cabra em cujo sangue ficará na imagem de Ifá até o dia seguinte.

Quando chegar ao quinto dia, o Bàbáláwò consultará Ifá, a fim de obter as previsões do ano, e de acordo com o resultado serão oferecidos novos sacrifícios e oferendas de objetos, conforme a resposta do Òrìsà, para que tudo transcorra da melhor forma possível.

No sétimo dia o Bàbáláwò oferece uma festa, na qual se come e bebe encerrando desta forma o Culto anual a Ifá.

Poderíamos falar muito mais sobre Ifá, mas deixo aqui meu e-mail para que entre em contato através do qual darei mais informações e orientações seguras e verdadeiras sobre este Òrìsà.


Para aqueles que receberam em seu Orí, a mão de Ifá, após passarem pelos rituais de iniciação, podem ser considerados portadores de um bem inestimável, com ele reencontrarão o caminho de seu destino primordial, puro, limpo de todas as mazelas que adquirimos durante a vida; é um reencontro com nossa transcendência. Mas, é necessário esclarecer que para fazer juz a este direito também será preciso uma altíssima reconsideração de suas atitudes perante a vida, pois este ser não fará mais parte daquilo que chamamos do inconsciente coletivo que prevalece na raça humana, a partir de então passará a ser ele um indivíduo único, diferenciado, o qual terá de cumprir suas obrigações em relação a Ifá com respeito e dignidade a fim de poder receber o verdadeiro Àse e como conseqüência assumindo perante a si próprio responsabilidades muito grande, que se não cumpridas poderão trazer graves conseqüências.

Entendendo o Orí:

Quando nascemos, o Orí (cabeça), é o primeiro Òrìsà que recebemos, nele trazemos as impressões que estão gravadas no inconsciente, a nossa origem no universo. Ligados a ele por nosso Elédà, (mente superior), e fonte da inteligência para a sobrevivência no Aiyé (Terra), e dele (Orí), geramos toda a força propulsora que nos conduz em nossa jornada não somente para a vida em si mas também na saúde, prosperidade e equilíbrio, o qual está diretamente ligado ao Òrum (Céu), portanto aquele que conhece o próprio destino, da mesma forma que nos conduzirá na passagem do mundo físico ao espiritual, Ikú (a morte).

Assim, Orí = origem do ser = Elédà ( mente superior), está ligado ao Òrum, e ao mesmo tempo ligado à Terra (Aiyé), sobrevivendo após a morte para transmutar a morte física para a vida do espírito, e desta forma guardando em sua memória as marcas de sua origem.

"O pensamento provoca a ação", "a ação provoca a reação", e todos os frutos colhidos serão a resposta de nossa conduta, de nosso equilíbrio tanto mental como emocional, e isto é ter bom Orí, que saudaremos Olorire, e para aqueles com um mau Orí diremos Olori Burúkú, aquele de cabeça ruim, fraca.

Olódùnmarè, nosso Deus maior nos deu a perfeição, deixando conosco a sabedoria transcendente, a qual somente poderá ser compreendida com um bom Orí, assim diz o Oríkì (reza), "Nada se faz sem um bom Orí," nem mesmo nosso corpo tem comando, não anda, não prospera, não tem alegrias, não tem saúde.

Ifá em nossa vida

Ifá, é a soma da sabedoria suprema, a cosmogenia e a cosmologia, a vida e a morte, o nascimento da natureza, a visão total do mundo e da existência estabelecendo normas éticas que irão comandar as sociedades e os homens, e assim determinando uma conduta nobre diante de todas as forças que se formam contra o bem da humanidade, a força que conduz a sustentação do planeta vivo.

Neste processo tão poderoso, aquele que for iniciado em seu Culto estará agregando a si uma permissão para obtenção de um poder muito maior perante Olódùnmarè, assim existindo a necessidade por parte dos Sacerdotes conhecedores plenos da extensão deste mesmo poder avaliarem o candidato com muita clareza e assim permitindo ou não esta iniciação.

Nem todos estão habilitados a carregarem em seu Orí, esta força que liga o ser com o sagrado. Seus Sacerdotes, apoiados nos conhecimentos milenares, carregados por uma cultura de tradições em botânica, mineralogia, zoologia conseguem unir os elementos da natureza à energia vital de cada indivíduo procurando o equilíbrio entre as forças espirituais e materiais de cada um, esta união da ciência com o mundo espiritual precisa de mentes sãs.

A Conduta dos Filhos de Ifá

Fica assim muito claro que para estes filhos a conduta é de suma importância, e que haverá a necessidade de muito domínio de suas emoções onde a humildade, a paciência, o caráter, a dignidade, a sabedoria, deveram ser superiores a qualquer tipo de vaidade, prepotência, arrogância, ambição, sendo estas últimas características que poderão ser usadas indevidamente a fim de obter proveito próprio mas que sem dúvida serão cobradas pela lei universal de ação e reação.

Quando se fala que o Òrìsà castiga, é uma inverdade, pois na realidade a maior parte do sofrimento é fruto do desequilíbrio entre a emoção e a razão humanas, e conforme as atitudes tomadas perante seus semelhantes as forças que irão reagir em sua vida tanto poderão ser positivas como negativas, conquanto serão um fruto do seu bom ou mau Orí, a resposta daquilo que você é.

Em nosso mundo Ocidental achamos que o valor do homem está na obtenção somente de bens materiais, e para o consumo destas necessidades não se mede esforços nem os meios de alcançá-los, mesmo que muitas vezes as formas usadas sejam totalmente incompatíveis com as Leis Superiores. Não há respeito nem pela natureza, nem com seus semelhantes.

Na África, no entanto existe em seu povo a Consciência Plena dos compromissos que existem entre as forças da natureza e os homens, e que o verdadeiro bem não está em usar estes poderes de uma forma inconseqüente, explicando-se assim sua simples forma de vida, os verdadeiros valores do homem não estão em sua conta bancária, mas em seu Elédà, no uso da sabedoria adquirida não somente para o bem de si próprio mas para manter o equilíbrio do planeta.

A terra é a sustentação da vida, todo o mundo físico está sobre ela, carros, asfaltos, prédios , plantação ou qualquer outra coisa, isto tudo faz parte da ilusão do homem, sua maior riqueza está na natureza, sem ar ele não vive, sem terra ele não anda, sem fogo ele não tem progresso, e sem água ele não nasce.

O ser humano vive obcecado dentro de suas ilusões, por isto ele adoece, trapaceia, chora, e ri, deixando-se levar por valores que não são dele mas da condição de uma sociedade, a sua origem pura está perdida em meio a tudo isto e o desequilíbrio se instala em seu Orí, gerando a inveja, a ansiedade, a impaciência, a depressão, ele é um ser desconectado de seu Eu interior (Elédà), sem isto não consegue ouvir sua própria consciência e chegar verdadeiramente a Deus.

Quanto mais nos aprofundamos conseguindo entender a grandeza da sabedoria divina, mais distantes estaremos das banalidades, uma vez que a riqueza já está codificada dentro de nossa alma, é uma força sutíl que nossa sensibilidade grotesca não consegue perceber, e como resultado não temos paz, felicidade e prosperidade.

Antes de qualquer compromisso com Ifá, esta pessoa deve estar informada e preparada para assumir esta conduta.

A lealdade com o princípio Divino, estará acima de tudo.

A Transformação dos filhos Iniciados em Ifá:

No momento da iniciação o destino vivido por esta pessoa até então, estará sendo limpo, enterrado, dela serão tiradas todas as forças contrárias, e haverá uma mudança no trajeto até então vivenciado, fazendo com que seu Orí encontre o destino do momento de sua concepção, apagando as imperfeições conseqüentes de sua vida refletida pela sociedade onde nasceu, cresceu e vive para reencontrar a sua origem perfeita.

Mas para que esta força de fato venha adentrar em seu Orí e passe a fazer parte de sua existência estes novos filhos deverão procurar além de cumprir leis, entender, estudar o sentido desta filosofia para que a magia desta iniciação prevaleça neste Orí, sendo ela independente de seu Órìsà Guardião.

Ifá, é um culto tradicional considerado a fonte de todas as outras formas de adoração, é um livro de orientação, um roteiro, que trata você como indivíduo único e através do qual receberá suas regras de conduta pessoais Ewos, (leis) de acordo com sua origem ancestral, leis estas que irão levá-lo a obtenção da realização de sua felicidade de acordo com sua própria história e missão.

Aqui não pode haver a alimentação de sonhos que não fazem parte de seu destino, mas a leitura daquilo que você sempre foi, desde os primórdios e a busca de seu aprimoramento através das soluções apresentadas nos jogos divinatórios de Ifá. Assim em nada se parece a qualquer religião, associações ou fraternidades que existem, onde todos são tratados como massa independendo da inteligência, e onde seu Eu Interior não é respeitado.

O aprendizado correto da forma de sua cultuação requer um grau elevado no domínio de seu comportamento já cheio de vícios de personalidade este é o verdadeiro Àse, o nascer novamente com a maturidade e a consciência adquirida e poder reformular sua vida de forma a satisfazer sua vida.

Ritual de Iniciação em Ifá:

Primeiro o candidato será apresentado ao sacerdote, que jogará então o Opele-Ifá, e através dele terá a visão plena das condições necessárias para que este Orí possa receber esta iniciação. Jamais esta avaliação será feita através do jogo de búzios como é de costume aqui no Brasil.

Uma vez aceito, esta preparação será feita com um mês de antecedencia, quando então o sacerdote irá para a floresta sagrada à procura das sementes também sagradas, o Ikin, e então passadas por rituais que somente os Bàbáláwò podem executar.
Estas sementes são dotadas de três ou mais olhos (3.º olho, Iwa Yi, o olho do caráter), e serão escolhidas para cada pessoa de acordo com os Odú que caíram durante o jogo, não podemos esquecer que Ifá traduz a sua individualidade.
Durante o ritual iniciático, enquanto estão sendo batidas as sementes de ikin, o sacerdote estará recitando os versos (Itan) dos 16 Odú principais, mais Odú-Ifá Oseturá, que representa a criação da diversidade no Universo, e assim a visão dos inúmeros caminhos traduzidos pelos Odú, dando a Òrúnmìlà o nome de Eleripin (A Semente da Criação).
Estas sementes rezadas individualmente será o Ibá-Ikin-Ifá, elemento que fará a ligação de seu Elédà com sua origem Divina o qual estará relacionado aos primeiros 16 Odú, os Órìsà primordiais, e a multiplicação destes. A sua matriz de origem estará sendo invocada para dar sentido a sua vida aqui na terra.



Esù-Ifá

A ilusão nos causa impressões de que algo visto de perto pareçam simétricas, e quando vistas à distancia terão um novo foco, assim vice e verça. Partindo deste princípio tudo depende do modo como se "olha", assim a justiça, ou a injustiça, o bem e o mau, assim como é importante as pessoas terem em conta que muitas vezes aquilo que lhes faz bem hoje, com o tempo pode não ser, da mesma forma que aquilo que hoje é ruim, amanhã poderá ser muito bom.

Para a cultura Yorùbá, Èsù é o justiçeiro Divino, aquele que olha tudo, que leva a Olódùnmarè os anseios do homem e o trás de volta em forma de benefício, Àse ou não.

Tudo o que existe tem sua polaridade, e Èsù será aquele que nos dará a pista de qual o caminho tomar, ele traduz a linguagem densa de nossa crosta terrestre para chegar no divino, gerando caminhos (Odú), portanto ele é a primeira semente geradora.

Quando você conversa com a natureza e isto lhe trás benefício é Èsù que traduziu o seu código mental para a energia pura, trazendo de volta em forma de prazer interior.

Se o Ikin-Ifá é a mente, para cada inciciado será então plantado um Èsù, pois ele é quem vai transformar os desejos interiores no seu mundo paupável, a mente é a razão, e Èsù o gerador, aquele que faz conceber, nascer, criar e tornar possível os frutos desta razão.

Ele será plantado em uma pedra na qual os sacerdotes invocarão um espírito, e daí por diante você deverá criar uma afinidade de tal forma que tudo o que faça possa com ele dialogar, em todos os momentos, todos os dias e horas, se não fisicamente, mentalmente, criar uma simbiose. Forças são energias vivas que não podem ficar paradas, se você não tem este contato, com o tempo se vão, e aí você perderá novamente este elo de ligação, e só lhe restará uma pedra.


Ikin-Ifá e Èsù-Ifá

Por conclusão, quando o iniciado recebe estes elementos sagrados o seu equilíbrio espiritual será completo, representando a unidade entre aquilo que se pensa e aquilo que se faz.

Aquele que vive somente dentro da razão concentra na parte central do seu corpo esta energia, e viverá sempre tenso, dores de cabeça, mau humorado, é um ser nervoso.

Quando ao contrário a pessoa se agita muito mais do que faz, serão aqueles que não sabem nem o que fazem, nem para onde ir, e vivem se debatendo de um lado para o outro sem sentido ou objetivos.

O equilibrio está em pensar, e fazer. O Orí cria objetivos, os pés correrão o mundo, e as mãos farão o que precisa.

A manutenção deste enorme bem recebido terá que ser cumprido, sob muitas formas: Ao se levantar de manhã, em jejum sem falar com ninguém deverá orar para eles. Todas as sextas-feiras fará sua oferanda da semana. A cada 30 dias, sua oferenda de mês. E a cada ano será feita festa em sua homenagem. Todos os preceitos, oferendas ou qualquer coisa que fará sempre será sob a orientação de um Bàbáláwò, nenhum outro grau hierarquico dentro de nossa religião está apto para dar orientação sob a conduta e procedimento para os filhos de Ifá. É bom que se diga que na África, Bàbáláwò não são possuidos pelos Eleguns, e este um título é usado no Brasil indiscriminadamente por pessoas que não conhecem a profundidade de seus reais fundamentos.


Nota. Retirado do site:

www.omooduduwa.com.br

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Diga não aos oportunistas!!!



Olá pessoal, sou uma pessoa com muita fé nos Orisá, mas tenho me indignado com muitas coisas que a nossa religião vem passando nestes últimos anos.
São tantas coisas erradas e escabrosas, que irei citar apenas algumas, para que juntos possamos refletir e quem sabe, apoiarmos uns aos outros.
Primeiramente vou falar sobre a intolerância religiosa, que vem crescendo assustadoramente, não tendo um órgão do Estado sequer que venha em nossa defesa, deixando impunes os perseguidores e, obviamente livres para mais um ataque.
Tem também os Babalorisas mercenários, que abusam da fé dos miseráveis e cobram preços exorbitantes, deixam as pessoas menos favorecidas e já sofridas por seus próprios problemas, eternas devedoras, tornando-se assim, verdadeira marionete em suas mãos, às vezes até fazendo-as esmolar por muito tempo para conseguirem o valor estipulado.
E por fim, e não menos repugnante, a invasão desses ditos Babalawos africanos, que chegam aqui e, também abusando de nossa imensa fé, fazem de tolos àqueles que por desconhecimento e interesse em aprender como são feitas as oferendas na terra mãe, lhes obrigam a pagar valores incalculáveis para iniciarem-se em Ifá ou fazer um simples ebó, alegando que é a sabedoria dos ancestrais. Puro engodo!
Imagina se um verdadeiro Babalawo iria fazer tais sandices? Existem mandamentos de Ifá que falam sobre a conduta do Sacerdote.

Então, meus amigos, diante destas coisas todas que citei acima, não se deixem cair na conversa dessa gente arbitrária, que só vêem cifras e não nossos verdadeiros interesses.
Passei pessoalmente por todos estes problemas e conclui que devo mesmo é estudar com pessoas sérias ou profissionais, para que assim não mais me deixar cair em esparrelas. E se aparecer a oportunidade certa e a pessoa certa, quem sabe consiga concluir meus estudos, até mesmo indo diretamente à terra mãe.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

A importância dada ao bom caráter (ìwà pele)

Ìwà é o que caracteriza uma pessoa sob o ponto de vista ético. Para ser feliz uma pessoa deve ter ìwà pele, pois quem tem bom caráter não entra em choque com os seres humanos nem com os poderes sobrenaturais. Esse é o mais importante dos valores morais iorubá, e a essência da fé consiste em cultivá-lo.
A lenda de Ìwà é relatada na literatura de Ifá.
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Ìwà era uma mulher de rara beleza com quem Orúnmílà se casou, após ela ter se separado de diversos outros deuses.
Apesar de sua beleza, Ìwà tinha maus costumes e falava demais, sendo ainda preguiçosa e irresponsável.
Depois de algum tempo de casados, Orunmila, não podendo suportar o mau comportamento de sua esposa, mandou-a embora.
Entretanto, quando Ìwà partiu, Orúnmílà percebeu que não podia viver sem ela. Perdeu o respeito dos vizinhos, sua prática divinatória perdeu o valor, seus clientes se afastaram, ficou sem dinheiro, enfim perdeu tudo e foi desprezado por todos.
Tentando achar uma solução, vestiu-se de Egúngún e saiu por aí, à procura de Ìwà. Foi à casa dos 16 odu de Ifá à procura da esposa, cantando na porta de cada um:
“Grande Sacerdote de Ifá de Ajeró,
Adivinho de Ajeró,
Onde você vir Ìwà, diga-me.
É Ìwà, Ìwà que estou procurando.
Se você tem dinheiro, mas não tem Ìwà,
O dinheiro não é seu;
Ìwà é a pessoa que eu procuro.
Se alguém tem filhos, mas não tem Ìwà,
As crianças pertencem a outra pessoa;
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Ìwà, Ìwà é quem nós procuramos...
Se temos uma casa, mas não temos Ìwà,
A casa não é nossa, é de outra pessoa.
Ìwà, Ìwà é o que procuramos.
Se você tem roupas, mas tem falta de Ìwà,
As roupas pertencem a outra pessoa.
Ìwà, Ìwà é o que procuramos.
Todas as boas coisas da vida que um homem possui,
Se ele perder Ìwà, elas passam a pertencer a outra pessoa.
Ìwà, é o que estamos à procura!”
(Ogbon inú, awo Alárá;
Dífá fún Alárá, Èjí Osá,
Omo Amúrin kàn dogbon agogo.
Ìmoràn, awo Ajerò, Difá fun Ajerò,
Omo ògbójú koroo jà jále.
Níbo ló gbé ríwà fún un o,
Ìwà, Ìwà là n'wá o, Ìwà.
Ó nó bó o lówó, tóò níwà,
Owo olówó ni.
Ìwà, Ìwà là n'wá o, Ìwà.
Omo la bí,
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Tá à níwà, Omo olomo ni.
Ìwà, Ìwà là n'wá o, Ìwà.
Bá a nílé, tá à níwà,
Ilé omílé ni.
Ìwà, Ìwà là n'wá o, Ìwà.
Bá a láso,tá à níwà
Aso, aláso ni.
Ìwà, Ìwà là n'wá o, Ìwà.
Ire gbogbo tá a ni,
Tá à níwà.)
Depois de grande procura Orunmila achou Ìwà casada com Olójo. Quando cantou na porta de Olójo, este foi à porta recebê-lo e recusou-se a devolvê-la. Então eles começaram a brigar. Orúnmilá bateu em Olójo com a perna de uma cabra que havia sacrificado antes de sair de casa. O impacto atirou Olójo a muitas milhas de distância, e Ìwà foi levada de volta para sua casa.
Ao analisar a lenda vemos as várias razões da importância dada a Ìwà.
Primeiro é importante que o bom caráter seja simbolizado por uma mulher. No folclore iorubá as mulheres representam os dois extremos - amor, cuidado, devoção e beleza, versus fraqueza, deslealdade e falsidade. Só as mulheres podem simbolizar essa dualidade, de acordo com o conceito iorubá.
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A lenda mostra ainda que o homem deve cuidar de seu caráter tão bem como cuida de sua esposa. Da mesma forma que manter a esposa é obrigação do marido, o bom caráter deve ser uma obrigação para os que têm fé e querem viver de forma correta.
As mulheres são consideradas bruxas e podem até ser mentirosas, mas os iorubá crêem que a sociedade não pode sobreviver sem elas. Da mesma forma, pode ser difícil ter bom caráter, mas não se pode ser feliz sem ele.
Ìwà foi uma mulher que perdeu os bons hábitos. Significa que o homem que quer ter bom caráter deve estar preparado para encarar egbin - coisa suja - e passar por algumas situações desagradáveis, que podem ofender sua dignidade e decência. Mesmo assim não deve se desviar do bom caminho, para não perder a essência e o valor de sua vida.
Os versos equiparam Ìwà aos bens materiais que os homens almejam: dinheiro, filhos, casa e roupas. Um homem que tem bens materiais, mas não tem caráter, provavelmente irá perder tudo para uma pessoa de caráter, que saberá melhor tomar conta desses bens. Ìwà é o atributo de maior valor entre todos, no sistema iorubá.
Vemos que o costume dos zeladores de santo, de transmitir ensinamentos através de lendas (itans) em que os Orixás se comportam como pessoas comuns, com seus
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defeitos e fraquezas, é também uma herança da cultura tradicional iorubá.

*Tirado do livro: CULTURA IORUBÁ, Costumes e Tradições, de Maria Inez Couto de Almeida, Ifatosin.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Iniciação de Osun na África

Cultuar Ori






Orí inú, a cabeça interna, onde reside a conciência humana, a voz de Olódùmarè dentro de cada um de nós. Orí inú é representado pelo orí, pela cabeça, pela nossa própria cabeça. O Orí de todos nós deve ser tratado com muito cuidado, ou seja, é muito importante que nós tenhamos conhecimentos de nossos ewò (quizilas) para que não venhamos agredir a nossa própria ecênsia. O orí pode ser agradado constantemente, todos os dias, podemos fazer isso utilizando um obì, um orógbó e um cópo de água. Junto com orí, existe o Elédà, Elédà para muitos é nosso òrìsà, dentro de que aprendi, não é, Elédà é nosso duplo, nosso eu no plano espiritual, que precisa sempre estar em harmonia com nosso orí, para que possamos sempre cumprir com o nosso destino. Elédà é nossa mente superior, enquanto orí é nossa mente interna. No culto de Orí, é extremamente importante prestar culto ao ìpònrì, o dedão do pé esquerdo, pois esse é o simbolo de nossos ancestrais, e de nossos pés, lésè, para que sempre tenhamos um Ona rere, bons caminhos. Para que nossos pés encaminhe nosso orí aos bons lugares. Orí é de fato o mais importante, mas nunca pode ser cultuado sózinho, antes de cultuar orí, devemos cultuar Èsù, Iponri e Elédà, pois essas energias em harmonia é o que possibilita que o ser se encontre na vida.

Orin orí: ORÍ ENI, OUN NI ÀWÚRE ENI
BI MO JI LOWURO, MA GBA ORÍ MI MU
ORÍ ENI, OUN NI ÀWÚRE ENI.

CANTIGA DE ORÍ: SOMENTE O ORÍ DE UMA PESSOA QUE PODE ABENÇOA-LA
TODA VEZ QUE ME LEVANTO PELA MANHA, ABRAÇO MEU ORÍ
SOMENTE O ORÍ DE UMA PESSOA, PODE ABENÇOA-LA.

ORÍ IRE ORI MI ÀSE ORÍ IRE O
ORÍ IRE ELÉDÀ MI ÀSE ORÍ IRE.

ORÍ DE SORTE, MEU ORÍ QUE A SORTE ACONTEÇA
ORÍ DE SORTE, MEU ELÉDÀ QUE A SORTE ACONTEÇA.

ORÍ MI
ELÉDÀ MI, SEBI OMO WIPE
OMODE NI MI, GBEJA O FÚN MI JA O

MEU ORÍ,
MEU ELEDA, SOU CRIANÇA, NÃO SEI LUTAR
SOU PEQUENO, LUTE POR MIM.

TODOS ESSES ORÍN, FORAM DIVULGADOS AQUI NO BRASIL PELO BÀBÁLÁWO FÁBUNMI, ATRAVÉS DE BÀBÁ KING. MO JÚBÀ O

ORÍ GBOGBO AWON, IRE O!

domingo, 31 de janeiro de 2010

Odu Ifá

Odu Ifa
Odus
Escrito por Obanise
DIZ-SE QUE, NOS PRIMÓRDIOS DOS TEMPOS, NÃO EXISTIA SEPARAÇÃO ENTRE O CÉU E A TERRA (ORUM-AIYÉ) E QUE HAVIA UMA CONVIVÊNCIA ÍNTIMA ENTRE OS ORIXÁS E OS SERES HUMANOS; TODOS PODIAM IR AO ÓRUM E VOLTAR QUANDO DESEJASSEM. PORÉM UM CERTO DIA, O HOMEM DESONROU SEU COMPROMISSO COM ÓLORUM, PECOU CONTRA O SUPREMO AO TOCAR O QUE NÃO PODIA SER TOCADO. E ASSIM, O MESMO DIVIDIU O CÉU E A TERRA. O PRIVILÉGIO DA LIVRE COMUNICAÇÃO DESAPARECEU EM TROCA DAS DIFERENTES FORMAS ORACULARES ESTABELECIDAS E LEGADAS POR ORUNMILÁ.
Odús (signos de Ifá), são presságios, destinos, predestinação. Os odús são inteligências que participaram da criação do universo; cada pessoa traz um odú de origem e cada orixá é governado por um ou mais odús. Cada odú possui um nome e características próprias e dividem-se em "caminhos" denominados "ese" onde está atado a um sem-número de mitos conhecidos como itàn Ifá.

Os odús são os principais responsáveis pelos destinos dos homens e do mundo que os cerca.
Os orixás não mudam o destino da vida e sim executam suas funções dentro da natureza liberando energia para que todos possam dela se energizar e encontrar seu caminho,
O odú é o caminho, a existência do destino o qual o orixá e todos os seres estão inserido.
Alguém já escutou a seguinte frase ?
-com o destino não se brinca...
-sua vida esta escrita...
-seu destino já estava escrito...
E muitas outras frases populares que refere-se a odú.
Cada pessoa pode ir de encontro ou seguir um caminho alheio ao destino estabelecido, neste caso seu destino e sua conduta fogem as regras siderais (seguiu um caminho diferente dentro do estabelecido). Geralmente nestes casos, as mesmas tentem a sofrer decepções em sua vida em geral (amor, trabalho,família, saúde, mortes prematuras, etc) São nesses casos que a espiritualidade pode ajudar, porém tudo que é natural e de conformidade com o destino, não deve ser modificado.

Nós quando nascemos, somos regidos por um odú que representa nosso "destino" assim como o nosso caminho.

Através de ifá, podemos averiguar o porque das situações serem adversas as de sua vontade e se a mesma está em um caminho diferente ao destinado ou escolhido.

O destino das pessoas e tudo o que existe podem ser desvendados por meio da consulta a ifá, o oráculo, que se manifesta pelo jogo. Ifá tem seu culto específico e o mais alto cargo do culto de ifá é o de Olwo, título concebidos a alguns babalaôs. Ifá é o orixá da adivinhação e para tudo deve ser consultado. Existem alguns tipos de jogo utilizado por Babalorixás e Ialorixás que não são os mesmos métodos do opelé ifá (utilizado pelos babalaôs em consulta a Ifá), como o rosário de ifá, o jogo de búzios (meridilogun), etc.
No jogo de búzios (mais comum meridilogun) quem fala é exú, são dezesseis búzios que podem ser jogados também pelos babalorixás e yalorixás. A consulta a ifá é uma atividade exclusivamente masculina, mas as mulheres passaram a poder pegar nos búzios porque oxum fez um trato com exu, conseguindo dele permissão para jogar.
O jogo de opelé ifá baseia-se num sistema matemático, em que se estabelece 256 combinações resultantes dos 16 odús usados no jogo de búzios multiplicado por 16. Nada se faz sem que antes se consulte o oráculo, quanto mais séria a questão a ser resolvida, maior a responsabilidade da pessoa que faz o jogo.

Narram algumas lendas que ifá girou pelo mundo, deixando legados e ensinamentos a vários povos de como manter comunicação com os deuses no órun (céu), passando pelos árabes onde não foi aceito e vindo a se estabelecer definitivamente na áfrica, junto aos povos iorubás onde manteve seu legado ensinando aos sacerdotes como restabelecer a comunicação com seus antepassados. Assim ,aperfeiçoando um dos mais avançados métodos de consulta existente.


Tirado do site Mundo dos Orixas

Candomblé / Culto a Orisa

Em 1830, algumas mulheres negras originárias de Ketu, na Nigéria, e pertencentes a irmandade de Nossa Senhora da Boa Morte, reuniram-se para estabelecer uma forma de culto que preservasse as tradições africanas aqui, no Brasil.Segundo documentos históricos da época, esta reunião aconteceu na antiga Ladeira do Bercô; hoje, Rua Visconde de Itaparica, próximo a Igreja da Barroquinha na cidade de São Salvador - Estado da Bahia.Desta reunião, que era formada por várias mulheres, conforme relatei anteriormente, uma mulher ajudada por Baba-Asiká, um ilustre africano da época, se destacou: - Íyànàssó Kalá ou Oká, cujo o òrúnkó no orisá era Íyàmagbó-Olódùmarè.Mas, o motivo principal desta reunião era estabelecer um culto africanista no Brasil, pois viram essas mulheres, que se alguma coisa não fosse feita aos seus irmãos negros e descendentes, nada teriam para preservar o "culto de orisá", já que os negros que aqui chegavam eram batizados na Igreja Católica e obrigados a praticarem assim a religião católica.Porém, como praticar um culto de origem tribal, em uma terra distante de sua ìyá ìlú àiyé èmí, ou a mãe pátria terra da vida, como era chamada a África, pelos antigos africanos?Primeiro, tentaram fazer uma fusão de várias mitologias, dogmas e liturgias africanas. Este culto, no Brasil, teria que ser similar ao culto praticado na África, em que o principal quesito para se ingressar em seus mistérios seria a iniciação. Enquanto na África a iniciação é feita muitas vezes em plena floresta, no Brasil foi estabelecida uma mini-África, ou seja, a casa de culto teria todos os orisás africanos juntos. Ao contrário da África, onde cada orisá está ligado a uma aldeia, ou cidade por exemplo: Sangô em Oyó, Osun em Ijesá e Ijebu e assim por diante.

A ORIGEM DO NOME CANDOMBLÉ

Este culto da forma como é aqui praticado e chamado de Candomblé, não existe na África. O que existe lá é o que chamo de culto à orisá, ou seja, cada região africana cultua um orisá e só inicia elegun ou pessoa daquele orisá. Portanto, a palavra Candomblé foi uma forma de denominar as reuniões feitas pelos escravos, para cultuar seus deuses, porque também era comum chamar de Candomblé toda festa ou reunião de negros no Brasil. Por esse motivo, antigos Babalorisás e Iyalorisás evitavam chamar o "culto dos orisás" de Candomblé. Eles não queriam com isso serem confundidos com estas festas. Mas, com o passar do tempo a palavra Candomblé foi aceita e passou a definir um conjunto de cultos vindo de diversas regiões africanas. A palavra Candomblé possui 2 (dois) significados entre os pesquisadores: Candomblé seria uma modificação fonética de Candonbé, um tipo de atabaque usado pelos negros de Angola; ou ainda, viria de Candonbidé, que quer dizer ato de louvar, pedir por alguém ou por alguma coisa.


NAÇÕES
Como forma complementar de culto, a palavra Candomblé passou a definir o modelo de cada tribo ou região africana, conforme a seguir:

Candomblé da Nação Ketu

Candomblé da Nação Jeje

Candomblé da Nação Angola

Candomblé da Nação Congo

Candomblé da Nação Muxicongo

A palavra Nação entra aí não para definir uma nação política, pois Nação Jeje não existia em termos políticos. O que é chamado de Nação Jeje é o Candomblé formado pelos povos vindos da região do Dahomé e formado pelos povos mahin. Os grupos que falavam a língua yorubá entre eles os de Oyó, Abeokuta, Ijesá, Ebá e Benin vieram constituir uma forma de culto denominada de Candomblé da Nação Ketu. Ketu era uma cidade igual as demais, mas no Brasil passou a designar o culto de Candomblé da Nação Ketu ou Alaketu. Esses yorubás, quando guerriaram com os povos Jejes e perderam a batalha, se tornaram escravos desses povos, sendo posteriormente vendidos ao Brasil. Quando os yorubás chegaram naquela região sofridos e maltratados, foram chamados pelos fons de ànagô, que quer dizer na língua fon piolhentos, sujos entre outras coisas. A palavra com o tempo se modificou e ficou nàgó e passou a ser aceita pelos povos yorubás no Brasil, para definir as suas origens e uma forma de culto. Na verdade, não existe nenhuma nação política denominada nàgó. No Brasil, a palavra nàgó passou a denominar os Candomblés também de Xamba da região norte, mais conhecido como Sangô do Nordeste. Os Candomblés da Bahia e do Rio de Janeiro passaram a ser chamados de Nação Ketu com raízes yorubás. Porém, existem variações de Nações, por exemplo, Candomblé da Nação Efan e Candomblé da Nação Ijesá. Efan é uma cidade da região de Ilesá próxima a Osobô e ao rio Osun. Ijesá não é uma nação política. Ijesá é o nome dado às pessoas que nascem ou vivem na região de Ilesá, que caracteriza a Nação Ijesá no Brasil é a posição que desfruta Osun como a rainha dessa nação. Da mesma forma como existe uma variação no Ketu, há também no Jeje, como por exemplo, Jeje Mahin. Mahin era uma tribo que existia próximo à cidade de Ketu. Os Candomblés da Nação Angola e Congo foram desenvolvidos no Brasil com a chegada desses africanos vindos de Angola e Congo. A partir de Maria Néném e depois os Candomblés de Mansu Bunduquemqué do falecido Bernardino Bate-folha e Bam Dan Guaíne muitas formas surgiram seguindo tradições de cidades como Casanje, Munjolo, Cabinda, Muxicongo e outras. Nesse estudo sobre Nações de Candomblé, poderia relatar sobre outras formas de Candomblé, como por exemplo, Nàgó-vodun que é uma fusão de costumes yorubás e Jeje, e o Alaketu de sua atual dirigente Olga de Alaketu. Alaketu não é uma nação específica, mas sim uma Nação yorubá com a origem na mesma região de Ketu, cuja sua história no Brasil soma-se mais de 350 (trezentos e cinquenta) anos ao tempo dos ancestrais da casa: Otampé, Ojaró e Odé Akobí. A verdade é que o culto nigeriano de orixá, chamado de Candomblé no Brasil, foi organizado por mulheres para mulheres. Antigamente, nas primeiras casas de Candomblé, os homens não entravam na roda de dança para os orixás. Mesmo os que tornavam-se Babalorixás tinham uma conduta diferente quanto a roda de dança. Desta forma, a participação dos homens era puramente circunstancial. Daí ter-se que se inserir no culto vários cargos para homens, como por exemplo, os cargos de ogans.Hoje a palavra Candomblé no Brasil define no Brasil o que chamamos de Culto Afro-Brasileiro.

Oriki Osun

Òsun mo pé ó o!
Mo pé ó sí níní owo.
Mo pé ó sí níní Omo.Mo pé ó sí níní àláfià.
Mo pé ó si òrò.
Kí àwa má ríjà omi o,
Kí ilé má jò wá.
Kí ònà má nà wá o.
Pèsè àse fún wá o.
Kí àwa má ri Ogun idilé.

Tradução:
Osum eu te chamo, eu te chamo para que tenhamos dinheiro. eu te chamo para que tenhamos filhos. Eu te chamo para que tenhamos saúde. Eu te chamo para que tenhamos uma vida serena. Osum, nos proteja para que não haja problemas entre nós, teus filhos. Para que sempre haja paz em nosso lar. Que nossos objetivos não se voltem contra nós.
Dá-nos asé!
Que não haja problemas em nossa família.